“55 years from now, what set of 2008 values will seem as warped and antiquated? And why?”

 

Escrevi este ensaio para participar do concurso Essay Atticus da WPP. A proposta do texto era tentar prever quais conjuntos de valores seriam considerados bizarros dentro de 55 anos. Foi mencionado o autor de 007 e as atitudes de fumantes de James Bond.

Novo velho mundo

Não faz muito tempo estive pensando em algumas obras que sempre me fascinaram. Aliás, a cada ano, duas delas, em particular, me vem à mente e geram as mesmas perguntas e, no final da reflexão, a mesma frustração – a falta de uma resposta plausível ou até mesmo a existência de uma. Como Stanley Kubrick previu em 1968 (2001 – Uma Odisséia no espaço) que estaríamos rodeados por máquinas e criando relações cada vez menos afetuosas com as pessoas? Como George Orwell previu em 1949 (1984) que viveríamos em um mundo no qual o ‘Grande Irmão’ além de ser realidade, estivesse incorporado em cada um de nós (câmeras estão em toda parte observando)?

Para ter uma idéia sobre quais valores serão antiquados e ‘aberrantes’ daqui a 55 anos, é preciso analisar o comportamento e a situação em que viviam e vivem as gerações passada e a atual levando em consideração as mudanças tecnológicas para, então, entender melhor o mundo como nós o conhecemos e contrastar o quão radicais foram as mudanças ocorridas nesse meio tempo, tendo assim alguns insights de como estaremos no futuro.

Há mais ou menos cinco décadas, as questões ambientais e da saúde física e psicológica da sociedade não estavam tão em evidência, além disso, o mundo não conhecia a internet e, provavelmente, não tinha idéia do que viria nos anos subseqüentes. O mercado de trabalho era dominado pelos ‘Tradicionalistas’, nascidos entre 1900 e 1945, que se caracterizavam por serem leais, trabalharem com afinco e buscar estabilidade. A geração seguinte, conhecida como ‘Baby-boomers’, nascidos de 1946 a 1966, se caracterizava pela determinação, gosto por desafios, capacidade de trabalhar em equipe e por se preocupar com dinheiro e férias (diferente das gerações posteriores, respectivamente, ‘X’ e’Y’)¹.

Em 1954, o ‘Marlboro Man’² era o estereótipo perfeito, símbolo de status e personalidade forte (o “machão”) – hoje, definitivamente, não mais, devido muito ao fato do cigarro ser muito prejudicial não só aos fumantes ativos, mas também aos passivos.

Fenômenos como o El Niño e La Niña assim como outros desastres climáticos, não eram tão constantes e ‘normais’. Uma conseqüência já aparente, é que isso está colaborando para que o mundo comece a mudar os hábitos e comportamentos tendo mais consciência e responsabilidade não só com o planeta, mas também consigo.

Esses fatores somados à velocidade tecnológica geraram a situação na qual nos encontramos hoje, uma situação mais complexa na qual uma ‘nova’ sociedade surgiu, uma sociedade mutante e altamente adaptável, da qual diversos grupos fazem parte. Grupos que vivem na mesma época e, no entanto, têm características e perfis diferentes, a não ser pelo fato de se identificarem com produtos high-tech. A geração ‘Y’ – nascidos entre 1978 e 1994 – cresceram junto à “Revolução Tecnológica”, são inovadores, despojados e informais³; a geração ‘Multitasking’ é capaz de realizar atividades como assistir televisão, ouvir música, ler uma revista e navegar na internet simultaneamente; e a geração ‘Zapping’ troca de uma visão de mundo para outra rapidamente. Isso sem citar as gerações ‘Kidults’, ‘YAWN’, ‘Odisséia’ e outras, cada uma com sua particularidade.

Enquanto isso, com o objetivo de ter uma gama maior de produtos sem precisar locar um imenso espaço para armazená-los, lojas virtuais continuam substituindo lojas físicas. A Telepresença já é uma realidade e está sendo adotada por grandes empresas dispostas a arcar com altos custos de implantação para diminuir o custo das viagens de executivos que vão para reuniões e, ainda serem ambientalmente responsáveis, por lançarem menos dióxido de carbono na atmosfera. No Japão, onde os produtos duram até o lançamento do próximo novo produto, já existem robôs que funcionam como empregados domésticos e até animais de estimação .

O resultado de todas essas transformações é que, hoje, é normal ver pessoas tratando outras com mais ou menos respeito de acordo com a própria conveniência ou pela hierarquia na qual tal pessoa está inserida na sociedade. Se você é um alto executivo ou aparece na televisão ganha logo status de celebridade e ‘merece’ ser tratado com mais dignidade do que um lixeiro ou um pedreiro, que trabalha tão dignamente quanto um ator ou diretor. Isso é antiquado, pois cada ser humano merece respeito pelo fato de ser ‘humano’. Daqui a 55 anos tudo será melhor, pois obsoleto continuará sendo ver ‘James Bond’ em ‘Casino Royale’; será ver uma pessoa se “encontrando” com outra através da tela de um computador ou jogando lixo na rua; será presenciar executivos viajando para reuniões e poluindo o ar, será viver em um lugar no qual produtos, serviços e relações interpessoais servem apenas para serem substituídos e não para serem duradouros.

No dicionário, a palavra valor é definida como conjunto de princípios, ideais e julgamentos morais. No entanto, enquanto vivermos em um sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção visando o lucro, dificilmente os valores mudarão, pois estão adaptados ao sistema. E, no futuro, perceberemos que as pessoas continuarão fumando, se encontrando com outras por hologramas, poluindo o ambiente de alguma forma e vivendo em um lugar no qual as relações humanas serão mais ‘frias’ devido ao excesso de trabalho e informação que deixará menos tempo livre para todos. Refletiremos novamente e tentaremos especular sobre quais valores serão aberrantes mais para frente, mesmo sabendo que não importa o tempo que leve, enquanto o sistema não mudar ou evoluir, os valores não mudarão. Hipocrisia? Com certeza isso também foi, é e será antiquado.

Albert Y. Takahashi

____________
¹ Harmonia entre as gerações é um desafio. Gazeta Mercantil; 14/09/2007, Vol. 87 issue 23660, pC9, 2007.
² Character created by Leo Burnett Worldwide in 1954.
³ Geração Y. Cool Magazine; June/2008, Vol. 69, p66-67, 2008.
Meu amigo, o robô. Isto É; 17/09/2008, Vol. 2028, p94-96, 2008.

Anúncios

Sobre Albert Takahashi
Brazilian-Japanese, gratuated in advertising, home-broker, traveler, experiencialist, blogger, tweeter guy, youtuber, digital influencer, living/studying French in Montréal currently, analysing the human behaviour and its interaction with the social media.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: